Foto: Reuters / Sérgio Moraes

sábado, 12 de setembro de 2009

PMBA realiza o primeiro curso de TCO do Brasil

Autor: Danillo Ferreira

Como anunciei em post recente aqui no Abordagem Policial, a Polícia Militar da Bahia (PMBA) realizou na semana passada (de 29 de junho a 03 de julho) o Curso de Atendimento Pleno ao Cidadão, que visa a capacitação de policiais para realizarem a lavratura do Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), que é um simples relato de uma ocorrência policial onde há o cometimento de infração penal (crime ou contravenção) de menor potencial ofensivo. Na maioria dos estados brasileiros, as polícias militares não realizam tal procedimento, sendo exclusividade dos delegados de polícia, após ouvir o relato dos participantes da ocorrência e da primeira autoridade a ter contato com o fato: o policial militar.
Com a lavratura do termo circunstanciado pelos policiais militares, como já ocorre em estados como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, esse caminho é diminuído, pois o breve e simples relato que é o TCO, é feito logo pelo policial militar, após verificadas as circunstâncias em que, de fato, ocorreu a infração. O TCO, seja ele feito por um delegado ou por um PM, é enviado para um Juizado Especial Criminal, que marcará uma audiência e tomará as medidas devidas em relação ao infrator (que deve concordar em comparecer ao JECrim).
Tive o prazer de participar do curso, que foi o primeiro do Brasil, ministrado por oficiais da Polícia Militar de Santa Catarina, referência nacional na implementação do TCO. O Major Martinez, coordenador, ao tratar do curso realizado pela PMBA, em parceria com a PMSC, esclareceu as vantagens da lavratura do TCO pelos policiais militares:
“A elaboração do termo circunstanciado de ocorrência nas infrações penais de menor potencial ofensivo no local dos fatos, pelo policial que está no local, de forma imediata e rápida, com encaminhamento direto a Justiça, representa um grande avanço em relação ao exercício e à promoção da cidadania.
Por um lado, o cidadão exerce o direito de não ser conduzido coercitivamente a uma repartição policial quando a lei lhe dá o direito de relatar o que ocorreu, assumir o compromisso de comparecer em juízo e ser liberado.
Por outro, o policial exerce seu papel de forma mais efetiva e pedagógica, pois ao elaborar o termo circunstanciado pessoalmente, na frente dos envolvidos, cria as condições para uma resolução mais rápida e eficaz para todos: vítima, vizinhança e o próprio ofensor, fortalecendo um modelo de justiça mais calcado na celeridade e informalidade e focado na resolução de conflitos.”
Obviamente que a implementação duma medida dessas depende de negociações políticas e até de mudanças culturais no exercício da segurança pública. Mas a realização do curso, apesar de só ter sido aberta a oficiais e aspirantes-a-oficiais (73 ao todo), mostra a disposição da corporação para entender a mudança que está virando tendência em diversos estados brasileiros — com o incentivo da SENASP. Fazer o TCO é fácil, tecnicamente os praças baianos têm condições de realizar o procedimento. Mas acredito que o problema não está aí, e sim na motivação à tropa como um todo (e como isso é complexo!). Se a tropa for convencida, nenhuma força externa conseguirá demover essa tendência, e a Polícia Militar da Bahia, como dizem os oficiais da PMSC, terá seus PM’s fazendo TCO “no capô da viatura”.
Fonte: Blog Abordagem Policial

Ponto de vista dos delegados da PCSP sobre o fim TCO da PMSP

SP:Fim do 'TCO' da Polícia Militar


(050809)


Secretário tira registro de delito da PM. Resolução será publicada pelo titular da Segurança Pública Estadual em 15 dias; só delegado vai registrar delitos
O procurador de Justiça e ex-policial militar Antonio Ferreira Pinto, secretário de Segurança Pública de São Paulo, afirmou ontem, em visita a Bauru, que vai restabelecer a atribuição exclusiva da Polícia Civil para o registro de delitos de pequeno potencial ofensivo. A resolução, segundo ele, a ser publicada em 15 dias, define que o policial militar não poderá mais realizar registro (termo circunstanciado – TC) das ocorrências mais simples.
A medida enterra no âmbito estadual a polêmica gerada em 2002 com a publicação de norma pela Secretaria Estadual de Segurança Pública que permitia ao PM elaborar o TC sem necessidade de encaminhamento pela autoridade do delegado de polícia.
A decisão do secretário, que fez carreira na PM e formou-se na década de 70 no Batalhão Militar de Bauru da época, vai desagradar os colegas de corporação. “Eu sei que vou desagradar meus amigos da Polícia Militar, minhas origens são da PM, meus vínculos são muito grandes com a corporação, mas eu entendo que o termo circunstanciado é uma atividade de polícia judiciária. E este papel deve ser exercido pela Polícia Civil. Não se renuncia atribuição, direitos e prerrogativas. Vou restabelecer uma resolução de 2002 definindo que o TC é de responsabilidade da Polícia Civil de São Paulo”, diz.
Ferreira Pinto considera que a experiência piloto, implementada pela pasta em 2002, em Rio Preto (SP), não tem mais sentido. “A experiência, o piloto, em São José Rio Preto não prosperou. O sinal evidente disso é que foi editada em 2002 e ficou estagnada, há reconhecimento de que a revisão do fato descrito por um policial militar no termo circunstanciado tem de ser feita por um policial, o que evidencia que não é uma atribuição específica do policial militar. Quem deve fazer uma análise se aquele fato delituoso corresponde a um crime de menor potencial ofensivo ou não é quem tem qualificação específica, que é o Delegado de Polícia”, conta.
A tentativa de dar à PM a atribuição para registro de delitos de pequeno potencial ofensivo surgiu, entre seus principais argumentos, como alternativa para agilizar o processo de polícia judiciária, contribuindo para desafogar os distritos policiais – que permaneceriam com as já reconhecidas atribuições de crimes relevantes. A medida, entretanto, arranhou a já movediça relação entre as duas corporações policiais.


Escolta de presos


A resolução anunciada pelo secretário terá outras abrangências. A Polícia Militar, por exemplo, vai assumir a escolta de presos em municípios que contam com cadeia pública. Em várias cidades de pequeno porte, a escolta vai ampliar as dificuldades no atendimento de serviços de segurança à população pelo quadro reduzido de PMs. “Na resolução vamos disciplinar outras questões. A escolta de presos em cadeias públicas vai ficar só sob a responsabilidade da PM. Hoje, a Civil é quem faz a escolta em municípios”, diz. A medida altera a relação de responsabilidade em cadeias como de Duartina, Pirajuí e Avaí na região de Bauru.
Para enfrentar a carência de pessoal tanto na PM quanto na Civil, o secretário garante que há estudo em andamento para racionalização do contingente distribuído e ampliação do quadro. “Estamos estudando a distribuição de distritos policiais por população. Há uma distorção muito grande em Bauru se comparado com Jaú, mas se comparar com Piracicaba o contraste é ainda muito maior. Lá existem sete distritos policiais e duas delegacias de defesa da mulher e nós determinamos ao delegado geral que faça estudo para reengenharia dessa distribuição de efetivo”, menciona.
Ferreira Pinto acrescenta que o orçamento do setor vai incorporar investimentos em estrutura de pessoal. “Nós também, no estudo, vamos reavaliar a criação de delegacias Seccionais e de Distritos sem muito critérios. Precisamos racionalizar a utilização dessas vagas em relação ao público atendido e estamos fazendo estudo nesse sentido. Estas adequações estão previstas para ter início no orçamento de 2010 e se aprovadas poderão ser implementadas. Temos previsão para investimentos tanto na polícia Civil quanto Militar”, finaliza.
Ferreira Pinto respondia pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), cargo que agora é ocupado pelo secretário adjunto da Secretaria de Segurança, Lourival Gomes. Ferreira Pinto comandou a Secretaria de Administração Penitenciária desde 2006. Foi também secretário adjunto da SAP nos governos de Fleury Filho e Mário Covas (falecido). Ele também foi membro do Colégio de Procuradores do Ministério Público entre 2002 e 2003 e do Conselho Superior do Ministério Público entre 2004 e 2005.


Reunião com delegados


O secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, se reuniu na tarde de ontem com 50 delegados seccionais do Departamento de Polícia Judiciária do Interior-4 (Deinter-4) para se apresentar e fazer uma avaliação dos primeiros dois meses de comando do diretor do departamento, Licurgo Nunes Costa.
“Viemos fazer uma primeira análise do trabalho realizado o que me deixou muito contente pelo empenho, pela empolgação e pela capacidade de trabalho. Eu tenho certeza de que dento em breve a cidade de Bauru e região vão colher frutos de um trabalho muito sério e muito dedicado que vai elevar sobremaneira o nome da Polícia Civil”, avalia o secretário.
Ferreira Pinto também contou que tem um afeto especial pela cidade de Bauru, onde trabalhou na década de 60, residiu e teve seus filhos. O secretário alegou que volta para São Paulo contente com os resultados apresentados em Bauru.
“Tenho certeza do dever cumprido e o secretario demonstrou sua satisfação com as estatísticas apresentadas e como o trabalho que vem sendo realizado. É extremamente gratificante para toda a Polícia Civil de Bauru e região receber a visita do secretário de Segurança Pública do Estado”, afirma o diretor do Deinter-4.

Jornal Cidade de BauruMário Leite de Barros Filho Delegados.org

Inovação no atendimento de ocorrências da PM de São Paulo

11/09/2009 - 08h24
Polícia Militar de SP é proibida de registrar ocorrências no Estado

AFONSO BENITES
da Folha de S.Paulo

Desde ontem (10), a Polícia Militar não pode mais registrar ocorrências em nenhuma região do Estado de São Paulo.
O documento usado nesses casos é conhecido como TC (termo circunstanciado) e é feito apenas para crimes de menor potencial ofensivo. A medida era usada em algumas regiões como São José do Rio Preto, Arujá, Guarulhos, Mogi das Cruzes e o bairro de Itaquera, na zona leste da capital.
Os TCs só podem ser feitos para delitos em que a pena máxima é de dois anos de prisão. Entre esses crimes estão a calúnia, a difamação, o ato obsceno, a lesão corporal leve e o exercício ilegal da medicina.
A alteração, que consta em uma resolução publicada ontem no "Diário Oficial do Estado", foi assinada pelo secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto.
Na prática, isso significa que, quando houver alguma ocorrência de menor potencial ofensivo, o cidadão que quiser registrá-la deverá obrigatoriamente procurar uma delegacia. Antes da mudança, os registros poderiam ser elaborados pela PM, incluindo policiais rodoviários e ambientais.
Na resolução, o secretário avaliou que desde que a PM passou a fazer os TCs, em 2003, o "relacionamento entre as instituições policiais foi afetado de forma sensível, com crescentes atritos, advindo posturas que prejudicam o bom andamento do serviço policial, em detrimento do interesse público".
Ao transferir essa responsabilidade para a Polícia Civil, o secretário pretende reforçar o policiamento ostensivo, exercido pela PM, e fazer com que policiais civis se dediquem exclusivamente à investigação.
A medida foi vista de maneiras diferentes por especialistas e entidades que representam as duas categorias policiais.
Para Luís Flávio Sapori, sociólogo e professor da PUC-MG, o que está por trás da decisão é uma disputa institucional entre as duas polícias.
O presidente da Associação dos Oficiais da PM de São Paulo, Luiz Carlos dos Santos, diz que a resolução vai na contramão do que ocorre no país. "O correto seria que os PMs fizessem o termo em todo o Estado."
Já o presidente da Associação dos Delegados de Polícia, Sérgio Roque, elogiou a medida. "A PM tem que cuidar do policiamento ostensivo. Esses termos têm de ser feitos por bacharéis em direito."
Desde que assumiu o cargo, há seis meses, Ferreira Pinto tem realizado uma série de mudanças na estrutura da polícia paulista. As mais recentes foram: transferir para a PM todas escoltas de presos (a Civil fazia 13% delas) e trazer para seu gabinete o controle da Corregedoria da Polícia Civil.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Brasil desmantela rede internacional de prostituição

Agência Estado



Uma operação aparentemente de rotina, desencadeada no Brasil há um mês, está ajudando os governos dos Estados Unidos e da França a desmantelar, com auxílio da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal), uma gigantesca rede de prostituição de alto luxo, com envolvimento até de políticos desses dois países. O esquema, investigado em São Paulo pela Operação Harém, da Polícia Federal (PF), consistia no recrutamento de jovens brasileiras e posterior agenciamento para clientes no exterior, que as escolhiam num catálogo eletrônico de fotos.
Na extensa lista de clientes, há grandes empresários, executivos e autoridades públicas internacionais, incluindo políticos de Las Vegas, no Estado norte-americano de Nevada. Na França e no Caribe, onde também há ramificações do esquema, a investigação também avança, com ajuda da Interpol. Durante a operação, deflagrada em 1º de agosto, 15 mulheres foram detidas em São Paulo e confirmaram o esquema. Mas todas foram liberadas após o depoimento porque, com base na legislação brasileira, foram consideradas vítimas do tráfico internacional de mulheres, segundo explicou uma fonte policial com acesso às investigações.
Ao contrário das mulheres aliciadas, os operadores e financiadores do esquema responderão perante a Justiça de Brasil Estados Unidos, França e Caribe. Conforme a denúncia do Ministério Público (MP) à Justiça Federal em São Paulo, os réus brasileiros responderão pelos crimes de tráfico internacional e nacional de pessoas com fins de prostituição, rufianismo (tirar proveito da prostituição alheia), formação de quadrilha e favorecimento à prostituição.
Conforme a denúncia, seis grupos atuavam no esquema, sendo três deles no Brasil, onde ficava o núcleo central responsável pelo agenciamento e aliciamento das mulheres. Elas eram enviadas para Estados Unidos, Caribe e França, onde ficavam os outros três grupos. Algumas seguiam para acompanhar clientes em programas em grandes cassinos de Las Vegas, em resorts da República Dominicana e outros locais no Caribe. Outras recebiam os clientes no Brasil mesmo, em cidades como Rio de Janeiro, Vitória e São Paulo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Comentário por André Silva: Sobre o ataque aos policiais da Bahia

Depois da polícia do Estado de São Paulo sofrer baixas, agora foi a polícia do Estado da Bahia que está sob os ataques de criminosos. Ataques a policiais em serviço, ordens possivelmente dadas de criminosos presos em penintenciárias e ônibus queimados são mais do que ataques, são frutos da impunidade e da ineficiência do Estado em punir e se fazer respeitado.
Não é de se estranhar que a ousadia desses criminosos, mais uma vez, chegasse ao ponto de repetir essa tragédia. Se o Estado e seus governantes estivessem agido eficientemente em resposta os ataques à policiais em São Paulo, essa nova agressão talvez pudesse ter sido evitada na Bahia.
Se o Estado agisse com eficiência no combate e controle da criminalidade, se as leis realmente fossem respeitadas e punissem quem as desrespeitassem, crianças não seriam arrastadas em carros pelo asfalto, policiais despreparados e sem condições dignas de trabalharem e viverem não cometeria erros letais, o índice de homicídio não estaria aumentando entre os jovens brasileiros.
Quando bandidos administram seus negócios ilegais de dentro das cadeias por meio da corrupção, como é costumeiramente veiculado pela mídia, queimam ônibus aterrorizando e fazendo a sociedade refém do medo e da insegurança e atacam a força policial é necessário questionar quem possui o controle da situação. Se é o poder público, porque então essa quadro ainda faz parte da realidade brasileira? Se é o comando do crime, aonde está a fraqueza do Estado?
Por André Silva

Polícia atacada, Estado afrontado! Quem manda mais? Bandido ou polícia?

Parede de posto policial de Salvador é atingida em novo ataque
Policiais do interior reforçam segurança na capital baiana.Três policiais ficaram feridos e seis suspeitos foram mortos desde segunda.
Do G1, com informações do Jornal Hoje
Novos ataques a ônibus e postos policiais foram registrados nesta quarta-feira (9) e deixaram moradores de Salvador assustados, mesmo depois do anúncio de reforço na segurança.

Veja o site do Jornal Hoje

Desta vez, o atentado derrubou parte das paredes de um posto da Polícia Militar na região central da capital baiana. O ataque foi de madrugada e o local estava vazio.

Quem mora nos bairros em que ficam os postos atacados diz que está com medo. É a primeira vez que Salvador enfrenta esse tipo de problema.

As ações começaram na segunda-feira (7). Pelo menos oito bases da polícia foram atacadas e nove ônibus, incendiados. Três policiais ficaram feridos e seis suspeitos de envolvimento na onda de violência morreram. A suspeita é que os atentados tenham ligação com a transferência de um traficante para Campo Grande.

Apesar do envio de policiais do interior e do reforço no patrulhamento, o governador Jacques Wagner disse não está descartado o pedido de ajuda às tropas federais. Isso deve acontecer se os ataques continuarem.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Comentário por André Silva: descriminalização das drogas

Criminalizar ou descriminalizar o consumo de drogas? Transeferir para a esfera da saúde pública ou manter na área do direto penal o consumo de drogas? Legalizar ou não legalizar a venda de drogas ilicitas?
O tráfico de drogas é um mal avassalador que ceifa vidas cada vez mais jovens, em especial nas periferias aonde o Estado só se faz presente por meio da ação policial. O consumo alimenta essa indústria altamente lucrativa, globalizada e cruelmente letal. O combate, enfrentamento, repressão tem se tornardo uma enfadonha e contraprodutiva atividade. Em Portugal a esperiência de descrminalizar o consumo de drogas parace ter surtido algum efeito positivo, será que na Colômbia, país líder e tradicional na produção de cocaína, também surtirá efeitos positivos?
Deve-se questionar quem irá pagar a conta dessa política de descriminalização. O ex-presitende do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, disse que o combate às drogas fracassou. Quem está pagando a conta por esse fracasso? Cadeias superlotadas, enfrentamentos em áreas de risco vitimando cidadãos comuns, policiais e criminosos, viciados cometendo outros delitos para sustentar seu vício e os altos investimentos sem retorno concreto em segurança pública para se tentar eliminar a circulação das drogas são consequência desse fracasso que no final da linha sacrifica e vitima a sociedade.
E quanto a descriminalização? Será que haverá investimento considerável na prevenção? Será que o SUS suportará essa nova demanda de viciados? Será que o morador da favela terá acesso à alguma clínia que reabilitação? Ou será que teremos espaços específicos para viciados consumirem suas drogas? Ou será que esses viciados se tornarão um novo nicho de mercado para a lógica capitalista com a oferta se seringas personalizadas, kit heroína, pacotes turísticos para viciados?
São questões que devem ser consideradas. A criminalidade cada vez mais crescente no Brasil exige ações rápidas, inteligentes e vigorosas por parte dos gestores e governantes. A complexidade dos problemas de segurança pública nem sempre viabiliza uma ação rápida sob pena de se enquadrar na ineficiência. No entanto tal complexidade não justifica o perigo da omissão.
Por André Silva

Portugal: Uma experiência de discriminalizar as drogas

ENTREVISTA/Glen Greenwald


Quando se trata de discussões sobre política de drogas e proibicionismo, boa parte delas gira em torno de teorias. Uma ação que está começando a chamar a atenção é a descriminalização do uso das drogas, que, em outras palavras, é o que acontece quando usuários de drogas contornam o sistema de justiça criminal e vão direto para o sistema de saúde.


Pouco conhecido nos círculos dos formuladores de políticas públicas é o caso de Portugal, uma nação que deu o passo de descriminalizar o uso de todas as drogas em 2001.


"Eles o fizeram por uma única razão: estavam muito preocupados com altas taxas de abuso de drogas nos anos 90 – mais especificamente com a heróina -, então chegaram à conclusão de que descriminalizar era o único caminho para baixar as taxas de abuso", diz o jornalista e comentarista político Glen Greenwald, que escreveu um relatório sobre os oito anos de descriminalização em Portugal para o Instituto CATO dos Estados Unidos.


Desde então, o caso português tem atraído atenção na mídia americana, com matérias na revista Time e Scientific American. Não é um feito insignificante, já que os EUA são fortes defensores da meta de erradicar o uso de drogas no mundo, um comprometimento que foi renovado esse ano após a revisão dos 10 anos da atual política da ONU, a despeito de algumas vozes dissonantes defendendo a redução de danos.


Glen Greenwald conversou com o Comunidade Segura sobre a experiência portuguesa. Foi bem-sucedida? "Sim, em números absolutos, o abuso de drogas caiu". Ele descreve como a descriminalização foi concebida, o que os dados portugueses nos dizem em comparação com outros países da União Europeia e que a descriminalização levou a uma queda no uso de drogas entre jovens. Tudo isso em um país que é sem dúvida conservador.


Conte um pouco sobre o processo de elaboração desse relatório…


Conversei com uma série de especialistas em política de drogas nos EUA, e a maioria deles ou não tinha ouvido falar da descriminalização do uso de drogas em Portugal, ou tinha apenas uma vaga noção do que havia acontecido. Eu estive lá por cerca de três semanas, em 2007 – a maioria dos dados é desse ano. Entrevistei funcionários do governo português e também consultei estatísticos para ajudar a interpretar os dados. Foi realmente difícil obter respostas de funcionários do governo dos EUA, então, no decurso do trabalho, demorou um pouco para esboçar o paper, então eu fui capaz de obter alguns dados atualizados. Trabalhei nisso em 2008 – são seis anos de dados.


O que levou Portugal a adotar a descriminalização?

Eles estavam muito preocupados com altas taxas de abuso de drogas na população, e queriam diminuí-las. E estavam também preocupados com o crime. O uso de drogas vem sempre de mãos dadas com todas as patologias: usuários não estão trabalhando, podem estar roubando, têm DSTs... Portugal tinha um problema horrível com o crime.


Quando o senhor diz 'problema horrível com o crime', com que podemos comparar?
A comparação foi de fato feita dentro da União Européia, e, você sabe, o jeito que os formuladores de políticas de drogas falam sobre o assunto é focalizando o uso de drogas – ou o seu abuso. E o uso de drogas em Portugal é substancialmente maior do que em outros países. Então, é quase automático que as taxas de crime serão mais altas, assim como as doenças sexualmente transmissíveis.


E isso era verdade para Portugal nos anos 90 em relação a outros países da UE?

Certo. Se você olhar para as taxas de prevalência entre Portugal e outros países, Portugal esteve sempre no topo – ou perto do topo -, e com a heroína era claramente o líder em taxas de prevalência. Eles tinham um problema horrível com o HIV, tinham problemas com Hepatite B e C. Esses eram grandes problemas. Eles não podiam estancar a infecção por causa de todo uso de seringas contaminadas.


É possível medir a criminalidade relacionada às drogas?
Isso é de fato um problema. Você pode inspecionar as mortes relacionadas às drogas – haverá uma investigação, uma autópsia. Mas é realmente difícil classificar um crime dessa forma. Se uma pessoa que é muito pobre rouba alguém para comprar comida, ou outros bens de primeira necessidade, isso é um crime relacionado à droga? Ou relacionado à pobreza simplesmente? Ou somente impulso criminal mesmo? As estatísticas para crime relacionado às drogas são bem pouco confiáveis, e em muitos países não é nem levada em conta. Eu faço foco nas coisas que você pode medir, como taxas de prevalência, mortes relacionadas às drogas e doenças sexualmente transmissíveis – aí você pode ver o que é efetivo.


E é possível medir taxas de prevalência com pesquisas? Quais os indicadores?
Vale a pena enfatizar que medir o uso de drogas e problemas relacionados não é uma ciência exata, em parte porque diversos países medem coisas diferentes, então torna-se muito difícil fazer comparações, em parte porque é uma espécie de luxo poder fazê-lo, já que é tão caro. Frequentemente, países pobres economizam com o tipo de coisas que são realmente necessárias para fazer pesquisas estatísticas significativas. Na UE, os estados-membros têm sido pressionados para coletar dados de maneira uniforme, levando a melhorias nos últimos 10 anos, e é por isso que considero que comparar as estatísticas portuguesas com outros estados da UE é mais confiável.


Muitos países tratam os usuários de drogas ou vendedores de maneira diferente. O que aconteceu em Portugal?

Definitivamente, ao mesmo tempo há alguns países que, tecnicamente, têm um processo de criminalizar, mas se na realidade tudo o que você faz é comprar para uso pessoal, a probabilidade de que você vá para a prisão ainda é muito baixa, mesmo passando por um processo criminal, o que já é ruim o suficiente.


No entanto, nos anos 90 em Portugal, à medida que o problema das drogas foi piorando, eles fizeram a criminalização mais duramente, e começaram de fato a prender um razoável número de cidadãos que não fizeram nada a não ser comprar drogas para consumo próprio. E isso foi um dos problemas que enfrentaram: uma vez que você introduz o medo do governo na população, o governo não pode mais oferecer opções de tratamento ou oferecer tratamento, porque cria-se uma barreira entre as instituições e as pessoas que elas querem alcançar.


O que permitiu a Portugal fazer essa importante mudança de política?
O que é tão interessante no que Portugal fez, onde, como no Brasil e certamente como nos EUA, a religião tem um papel significativos na sua cultura política, é que para lidar com o problema, eles removeram a discussão do reino político. Eles reuniram esse conselho de especialistas puramente apolíticos: médicos, psicólogos, doutores em política de drogas, um sociólogo.


A pergunta que esse conselho teve que responder não foi qual era a política mais razoável, ou qual era a política correta; era qual a política que permitiria ao país estancar de forma mais eficiente o problema do uso de drogas. A comissão trabalhou por 18 meses com esse mandato e publicou um relatório bem acadêmico e apolítico dizendo que a descriminalização seria a melhor maneira de permitir ao governo conter a maré do uso de drogas. Um conselho de ministros criado pelo presidente de Portugal então avaliou o relatório da comissão, e aprovou-o com unanimidade.


Por que descriminalização e não legalização?

Portugal é signatário de uma série de tratados internacionais, pressionado principalmente pelos EUA, que exige uma proibição legal do tráfico nas suas leis, de acordo com o entendimento de que o que acontece em um país em termos de tráfico afeta todos os outros.


Agora há pessoas que argumentam que o que Portugal fez – com a descriminalização – de certa forma viola esses tratados. Mas Portugal adotou a posição de que você pode descriminalizar e só não pode legalizar, enquanto houver a proibição escrita na lei. O tráfico é ainda ilegal em Portugal, e as únicas coisas descriminalizadas é a compra ou posse de uma quantidade de drogas para uso pessoal por 10 dias.


O senhor tem alguma ideia de como eles definiram esse período?
O período de 10 dias foi uma forma de definir "uso pessoal". Se você tem cocaína ou qualquer outra substância acima dessa quantidade, há uma boa possibilidade de que você possa distribuir para amigos ou vender. Se você tem o suficiente para uma semana ou alguns dias, então é provável que você queira usar para si mesmo.


Por que descriminalizar todas as drogas e não só a maconha? Isso foi motivado por uma preocupação com a heroína?


Na minha opinião, uma vez que você aceite os argumentos que persuadiram Portugal a descriminalizar – uma vez que você aceite que a descriminalização é o melhor caminho para controlar as drogas -, por que você iria excluir as drogas mais sérias dessa política? Na realidade, a heroína era a preocupação que os levou a agir dessa forma, que para eles era extrema.


O senhor sabe se existe um aumento do consumo das drogas sintéticas em Portugal?
Com certeza, se olharmos para os números frios, o consumo aumentou porque elas nem existiam em 2001. Mas se compararmos com outros países da Europa, em Portugal o uso dessas drogas aumentou, mas muito mais lentamente.


A descriminalização teve algum efeito em especial nas crianças e adolescentes?


Se você parar de usar todo o seu dinheiro em prender, processar e enormes forças policiais, todo esse dinheiro vai ficar livre. E aí você pode gastá-lo com campanhas reais. Isso aconteceu em Portugal. Eles têm campanhas de saúde reais, dezenas de milhares de crianças andando de bicicleta por toda Lisboa, por exemplo, e as campanhas entraram na rede educacional. Dinheiro que costumava ir para o departamento de justiça criminal para prender pessoas e liberá-las sem nenhuma mudança no comportamento agora pode ser investido crianças, influenciando-as de formas efetivas sobre os riscos do uso de drogas, ou em opções de tratamento – não apenas metadona, mas aconselhamento.


E essas campanhas preventivas conseguiram atinfir mesmo as crianças e adolescentes?
As taxas de uso de drogas por adolescentes em Portugal, sem comparar com outros países, mas em números absolutos, caiu nos 6 anos desde 2001, quando a lei entrou em vigor. Se você consultar qualquer literatura sobre isso, ela irá enfatizar que o grupo etário crucial são os adolescentes, o prognóstico-chave do futuro uso de drogas.


Em que idade exatamente?

Você deveria considerar dos 11 aos 15, mas na verdade o uso de drogas é chave nas idades de 15 a 19 – ensino secundário, quando ser rebelde começa, quando o uso de drogas pode se tornar aceitável, é aí que as decisões sobre os sistemas de valores das pessoas são tomadas nesse grupo etário.


O que acontece a um usuário de droga em Portugal?
De acordo com a lei portuguesa, você é enviado para uma clínica de dissuasão, onde trabalham médicos preparados para a redução de danos. Isso significa que você irá transformar tantos dependentes em não-dependentes que as taxas de uso de drogas irão cair...


Pode-se pode dizer – da perspectva da saúde pública – que existe algo como "dependentes transformando-se em não-dependentes"?


Sim. Muitas pessoas que eram dependentes param de usar; talvez haja uma diferença semântica, mas pela perspectiva do governo, o importante é que a pessoa não esteja usando, haja ou não uma dependência.


Esse modelo poderia ser transferido para outros países? América Latina? EUA?
No fim das contas, o único argumento contra a descriminalização é que ela iria levar a um enorme aumento das drogas. Até pessoas que se opõem ao que escrevi admitem que isso não aconteceu em Portugal. Os argumentos foram: “vamos transformar Lisboa em um porto para o narcoturismo... Se você considerar as pessoas referidas como usuárias de drogas, 98% era portuguesas, e isso era assim já antes.


Antes dessa lei entrar em vigor, havia precisamente a controvérsia que se espera que haja em qualquer lugar; se você fosse um político você iria evitar o tópico para proteger sua carreira política.


Quanto ao resto, “Portugal é um país pequeno, a cultura é diferente”... Para mim, isso é um argumento vazio. Se fosse uma vila de 20 pessoas, você talvez não pudesse estender isso para um país de 280 milhões. Mas se a descriminalização funciona para 10 milhões, por que não iria ser extensível para países maiores?


O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está considerando recriminalizar as drogas, argumentando que lutar a guerra às drogas vai de encontro a descriminalizar o consumo...


A Colômbia vive uma situação muito singular. O governo colombiano talvez não queira parar, porque os esforços paramilitares também são importantes no seu papel no combate às drogas. Portugal é mais um consumidor na divisão internacional do trabalho. É um caso peculiar.


Antonio Maria da Costa, chefe da UNODC, diz que você se livra das leis, mas não se livra do mercado ilegal, da produção, da máfia, do tráfico, então você não deveria abandonar a proibição...


A realidade é que a lógica que leva à descriminalização deveria se aplicar não apenas aos consumidores, mas aos traficantes. Não faz sentido, logicamente, criminalizar um lado e não o outro, os dois lados de uma mesma transação. Ao mesmo tempo, há essas barreiras que mencionei em termos de tratados internacionais.


Independentemente do caso dos traficantes, criminalizar usuários de drogas, botar pessoas na prisão ou arrastá-las para o sistema de justiça criminal, forçá-las a ter advogados e ameaçá-las de cadeia é uma coisa terrível para se fazer com as pessoas – e é contraproducente. Mesmo sendo apenas um passo gradual, é melhor do que nada.


Quando falamos de narcoturismo, naturalmente nós pensamos em Amsterdã e a descriminalização. É um caso diferente?
A razão pela qual as pessoas vão a Amsterdã não é apenas a facilidade legal de se obter maconha, porque na verdade você pode fazê-lo em quase qualquer lugar sem ir para a prisão. Amsterdã é um caso especial por causa de toda a cultura em torno dessa cidade, onde há os cafés... Ela se tornou uma cidade de hedonismo; é por isso que as pessoas a visitam. O fato é que eles nunca de fato descriminalizaram as drogas; eles apenas adotaram uma política de vista grossa. Assim, não acho que seja comparável ao caso de Portugual.

domingo, 6 de setembro de 2009

"Rota Comando" - Mais um retrato da realidade...

Novo filme: "Salve Geral" - Mais uma excelente produção que retrata a vergonha brasileira

A guerra contra o tráfico fracassou?

Guerra contra as drogas fracassou, diz FHC a jornal britânico
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu em um artigo publicado neste domingo pelo jornal britânico The Observer que a guerra contra as drogas fracassou e que deveria haver um esforço internacional para promover a descriminalização dos usuários de maconha. “Continuar a luta contra as drogas da mesma maneira seria absurdo. O que precisamos é de um debate sério que leve à adoção de estratégias mais humanas e mais efetivas para lidar com o problema global das drogas”, escreveu Cardoso.
Segundo o ex-presidente brasileiro, a política linha-dura trouxe consequências desastrosas para a América Latina, onde milhares de pessoas perderam a vida em episódios de violência ligados às drogas, a pobreza aumentou e “a corrupção está ameaçando frágeis democracias”.Fernando Henrique Cardoso também afirmou que Argentina, México, Colômbia e Equador estão dando passos em direção à liberalização das leis antidrogas e que a mudança é “iminente” no Brasil.
Tratamento e prevenção
A solução, para Fernando Henrique Cardoso, estaria em deixar a política de repressão aos usuários de lado e investir em tratamento e prevenção. “Está claro que a solução envolve uma estratégia de estender a mão, paciente e persistentemente, aos usuários, e não continuar travando uma guerra equivocada e contraprodutiva que transforma os usuários, em vez dos traficantes, nas principais vítimas”, defendeu ele no Observer.
O artigo de Fernando Henrique Cardoso foi bem recebido por ativistas que defendem uma reforma das leis antidrogas, segundo o jornal britânico. O ex-presidente brasileiro faz parte da Comissão Latinoamericana sobre Drogas e Democracia, juntamente com os ex-líderes da Colômbia, César Gaviria, e do México, Ernesto Zedillo. O grupo tem negociado com o governo americano uma mudança na condução de sua política de combate às drogas.

sábado, 5 de setembro de 2009

Quem consome financia...

América Latina pede que EUA e Europa reduzam consumo de drogas


BOGOTÁ (Reuters) 04/09/2008 - A Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia pediu na quinta-feira aos Estados Unidos e à Europa que intensifiquem seus esforços contra o consumo de drogas ilícitas, como parte de uma estratégia global que envolve também a repressão à produção e ao tráfico. A comissão, liderada por ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), busca levar à ONU uma proposta unificada de reforma da política global antidrogas.
“Tem-se a sensação de que o resto do mundo olha para a América do Sul como se fosse a culpada, porque a droga se produz em alguns países daqui, e não se dão conta de que eles consomem a droga”, afirmou Fernando Henrique.
“Haverá sempre quem produza quando houver consumo. É preciso combater também o consumo e os paraísos fiscais”, acrescentou o ex-presidente, dizendo-se preocupado com o poder de penetração do narcotráfico nos governos da região, gerando corrupção e ameaçando a democracia.
“As favelas no Brasil passaram de ser o reduto da pobreza e da miséria para se transformar em bunkers dos narcotraficantes, que utilizam sua gente para guardar e distribuir os pacotes de droga, utilizando as melhores armas”, disse FHC, citando também a expansão do narcotráfico no México.
Ele defendeu que, paralelamente ao combate policial-militar contra os cartéis de traficantes, a questão do consumo seja tratada como assunto de saúde pública.

DIREITO DE QUESTIONAR

Já César Gaviria defendeu que a Colômbia, destinatária de uma bilionária ajuda antidrogas dos EUA, tenha o direito de questionar os resultados e de propor outras estratégias.
“A Colômbia tem o direito é de perguntar se o enorme esforço que está fazendo está produzindo os resultados que a comunidade internacional supostamente está esperando, e se [os demais países] estão fazendo o que lhes cabe para avaliar suas políticas e ver se produzem os resultados esperados”, afirmou Gaviria, que também foi secretário-geral da Organização dos Estados Americanos.
Ele alertou que não se deve confundir a questão da despenalização do uso com uma trégua na luta contra o narcotráfico.
“Quero crer que quando falamos de despenalização estamos nos referindo ao consumo pessoal, e não à luta contra o narcotráfico”, disse.
O vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez, sugeriu que os países desenvolvidos, maiores consumidores de droga, paguem um imposto a países pobres que combatem a produção.
Vários países da América Latina são produtores importantes de drogas, como Colômbia, Peru e Bolívia, enquanto outros, como Brasil, México e Venezuela, têm importância como rota do tráfico. Além disso todos, em maior ou menor proporção, são afetados pelo consumo de drogas.
(Reportagem de Luis Jaime Acosta)

Legalizar ou não legalizar?

Tema em discussão: Liberação das DrogasEditorial - Jornal O Globo, 01/12/2008
Nova Agenda, por O Globo

Lições tiradas de experiências malsucedidas não reparam erros passados, mas são importantes para apontar caminhos que, à frente, possam levar a resultados positivos. É o caso da mobilização em defesa da revisão da política de combate às drogas, até aqui marcada pelo binômio repressão e criminalização, preceituado pelos EUA e adotado em boa parte do planeta.
O exemplo mais significativo da falência desse modelo é o chamado Plano Colômbia. Há anos, os EUA fazem um esforço de guerra para acabar com as plantações que dão a esse país o nada honroso primeiro lugar no mundo entre os produtores de cocaína. No entanto, de acordo com levantamento do Congresso americano, o cultivo da folha de coca aumentou 15% nos primeiros seis anos desta década, e o cartéis colombianos são responsáveis pelo abastecimento de 90% da droga consumida pelos americanos. De modo geral, não há exemplos mais gratificantes em países que também preceituam a repressão pura e simples como linimento contra a praga dos entorpecentes.
É sintomático, e altamente positivo, que, no momento em que a ONU revê sua política antidroga, plasmada pela visão americana, haja propostas sensatas para pelo menos se mudar o rumo da discussão. Nesse sentido, é de se esperar que na reunião convocada pelo órgão para março de 2009, em Viena, com o objetivo de estabelecer a nova agenda de combate às drogas, os países participantes façam uma análise desapaixonada do que foi feito até agora, e do que deve ser alterado, para enfrentar uma calamidade social que contabiliza 200 milhões de usuários de drogas no mundo, equivalente a 5% da população do planeta.
O caminho passa por uma liberação das drogas. Mas tal opção implica previamente uma discussão global. No caso do Brasil, passos positivos já foram dados no sentido de enfrentar o problema sem fundamentalismos repressivos – que devem ser dirigido ao tráfico. A legislação tornou-se mais branda para os usuários, mas há que se equacionar o problema gravíssimo também na esfera policial, da existência de quadrilhas de traficantes de drogas que subtraem do Estado o controle das áreas nas cidades.
O tema, complexo aqui e no mundo, há que ser visto com olhos contemporâneos, e não mais enfrentado com um receituário que, em vez de curar o paciente, acaba por agravar seus males.
Veja outra opinião publicada no mesmo EditorialJamais , por Milton Corrêa da Costa*

Merece reflexão a próxima reunião da ONU em Viena, em março de 2009. Na pauta está uma nova política internacional de combate às drogas. Discordo da opinião do jornal de que o avanço da discussão seja pelo caminho da liberação. É o mesmo que desferir um tiro no escuro. Não há qualquer experiência positiva desse sentido no mundo, nem histórias felizes sobre dependentes de drogas.
Não se trata de juízo preconcebido nem de conservadorismo. Trata-se é de uma perigosa realidade que faz enveredar jovens pelo caminho da destruição, e preocupa pais e responsáveis. Precisamos sim é lutar para frear o avanço das drogas e não para tolerá-las, sob o pretexto do direito de se fazer o que bem entender com o corpo.
Hoje são 5% da população mundial adulta que consomem drogas. No Brasil, de acordo com relatório divulgado em junho deste ano pela ONU, cresceu em 160% o número de usuários de maconha, e em 75% o de consumidores de cocaína, entre 2001 e 2004, indicando o documento que o país já tem hoje 870 mil usuários de coca. Com a liberação, esses números serão muito maiores. Os índices mostram também que cresceu o consumo de drogas sintéticas em países em desenvolvimento, como o Brasil.
Na Holanda, a permissividade está sendo revista. Os resultados de lá apontam para o crescimento do consumo, e o que é pior: país tornou-se um centro de abastecimento de drogas do mundo.
Não há certeza também de que, por exemplo, os traficantes do Rio, com a concorrência pela liberação, deponham seus arsenais e deixem de aterrorizar e oprimir cidadãos ordeiros para se tornarem sérios trabalhadores. Por sua vez, os traficantes de classes média e alta, que atuam no comércio das drogas sintéticas, crescem a olhos vistos.
No Brasil, a Lei de Entorpecentes avançou até onde podia, não mais encarcerando usuário ou dependente. Mas tolerância tem limites. O melhor que poderia resultar da reunião na Áustria seria rever as políticas de prevenção e repressão. Liberar, jamais. Com fronteiras vulneráveis, o país certamente se tornaria o paraíso mundial das drogas.

* Milton Corrêa da Costa é tenente-coronel da PM do Rio na reserva

Legalizar ou não legalizar as drogas? Quem pagará a conta da legalização?

O uso de droga é questão de sáude públicaO Globo, 25/01/2009 - Robert Sweet, juiz federal americano, defende a legalização do consumo e da distribuição de todos os tipos de entorpecentes.
Por Julita Lembruger*Robert Sweet é juiz federal desde 1978 e, atualmente, é o titular da Southern District Court de Nova York. Já presidiu inúmeras comissões que propuseram melhoria nos serviços prestados ao público pelo Judiciário e publicou trabalhos discutindo os desafios que os juízes enfrentam e seu papel na sociedade. Foi o primeiro juiz federal a defender, publicamente, a legalização do uso e da distribuição de todas as drogas. Para Sweet, drogas são uma questão de saúde pública, e não de Justiça criminal.
ENTREVISTA
O GLOBO: Como o senhor avalia o resultado de mais de três décadas da guerra contra as drogas nos Estados Unidos?

ROBERT SWEET: Nossa política em relação às drogas, que vem custando uma média de US$ 17 bilhões anuais ao contribuinte deste país, é um fracasso do ponto de vista do custo-benefício. Porque a criminalização do uso da droga tem sido ineficaz para mudar condutas, e acredito que lidar com as drogas como uma questão de saúde pública é a única solução viável. Taxar as drogas e prover assistência à saúde do usuário é o caminho adequado.
O GLOBO:O senhor foi o primeiro juiz federal a publicamente propor a legalização do uso e a distribuição das drogas. O senhor incluiria nesta proposta todas as drogas, da maconha à cocaína, da heroína ao crack?
SWEET: Todas as drogas que alteram o comportamento da mente devem ser controladas, exatamente como o álcool. Para serem comercializadas, devem ser taxadas e reguladas. Deverá haver restrições em relação aos lugares e horários em que as drogas poderão ser vendidas e, obviamente, não poderão ser vendidas a menores. Além disso, deve haver campanhas de educação pública esclarecendo sobre os problemas do uso de drogas. E, assim como acontece com o álcool, aqueles que provocarem danos ou ameaças a outros, quando sob a influência de drogas, deverão enfrentar sanções criminais.O senhor tem insistido que a proibição das drogas criou uma economia subterrânea poderosa nos EUA com resultados desastrosos.
O GLOBO: Que cenário é este?

SWEET: Os números resultantes desta economia poderosa são impressionantes, sobretudo se considerarmos as taxas de encarceramento e o tamanho do mercado. Estimase que o mercado de drogas nos EUA gire em torno de US$ 150 bilhões por ano. Hoje temos a maior taxa de encarceramento do mundo ocidental, ao custo de US$ 20 bilhões por ano. Processos relativos a drogas na Justiça federal americana triplicaram em dez anos. Enquanto nossos gastos com a guerra contra as drogas tiveram um aumento enorme, o uso de drogas permaneceu relativamente constante: continuamos a ter cerca de 40 milhões de usuários. Nossa política de proibição das drogas fracassou redondamente sem que fosse devidamente questionada.
O GLOBO: Na sua opinião, a legislação atual sobre drogas nos EUA é inconstitucional do ponto de vista da liberdade individual. Como o senhor sustenta esta proposta?

SWEET: Aqueles que forjaram nossa Constituição admitiram explicitamente que o indivíduo possui alguns direitos que não estão claramente enumerados no texto constitucional. O direito de ingerir determinadas substâncias, enquanto direito de se autodeterminar, pode ser encarado como um direito que encontra respaldo na Constituição dos EUA. Os cidadãos devem ter o direito de controlar e tomar decisões sobre suas questões privadas, na medida em que não causem dano ao bem-estar geral.
O GLOBO: Sua visão sobre o tema das drogas mudou ao longo de seu trabalho como juiz?

SWEET: Num dia do outono de 1988, quando fui obrigado a condenar a dez anos de prisão um rapaz de 18 anos, primário, superficialmente envolvido com o tráfico de drogas, comecei seriamente a reexaminar nossa política em relação às drogas. Pesquisei, conversei com especialistas, refleti muito e cheguei à conclusão de que nossa política, e a consequente legislação para a área, têm sido erros monumentais.Vários outros juízes têm chegado à mesma conclusão. E é muito doloroso para mim, como juiz, impor sentenças que considero injustas.
O GLOBO: Por que, na sua opinião, a legislação ainda não foi alterada e não se constituiu uma comissão com o a Wickersham, criada pelo governo federal em 1929 para estudar a proibição da venda do álcool?

SWEET: Estudos já foram propostos e não obtiveram financiamento. Um ministro da Saúde que propôs um estudo sobre o tema foi exonerado. O problema das drogas é uma questão sociológica, em relação à qual se conhece pouco. Se um estudo substantivo, inclusive do ponto de vista econômico, fosse desenvolvido, eu acredito que mudanças substanciais ocorreriam. É muito difícil discutir abertamente o problema das drogas na sociedade porque muitos mitos se criaram e é um problema de difícil solução. A abordagem punitiva é um método mais fácil: varre-se o problema para debaixo do tapete. Mudar a política atual não será fácil, mas precisamos reconhecer que o uso de drogas é, antes de mais nada, uma questão de saúde pública e que substâncias que alteram o comportamento da mente fazem parte da vida moderna. Seus efeitos precisam ser entendidos e atendidos. A criminalização não resolve o problema.*
Julita Lemgruber é socióloga e diretora do CESeC/UCAM